O Sangue Profano

O Sangue Profano
Meu Sangue profano, prove-o...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

(Versos Inscritos numa Taça Feita de um Crânio)

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie a terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus olhos.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora eu;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as frontes geram tal tristeza
Através da existência -curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.
(Lord Byron)

domingo, 14 de novembro de 2010

(Entre poetas)

Conhecer um poeta é maravilhoso
É encontrar mais um pedaço de ti
É saber que existe um lado seu por aí
Perambulando, pensando como você
Se perguntando, se respondendo
Morrendo e vivendo

É mais que isso
É entender que no final a vida é uma merda
Mas enquanto vivo, vou amando
Não me importo por que ando
Por que sorrio no Rio
Por que morro em Veneza
Mas tudo isso é uma tristeza
É uma vela não acesa

Que prazer que tenho em escrever
Se sofro é mentira
É tão mentira quanto dizer
Que a poesia não me possuía

domingo, 31 de outubro de 2010

(Lembrarei)

Dizer que as coisas são tão simples, é tão complicado para mim
Dizer que quando você olha em meus olhos, eu desabo sobre mim
Dizer que um detalhe, como o seu sorriso, me deixa assim
Me deixa assim perder, algo que ninguém gosta, mas perder para você
Posso perder minhas lágrimas, só pra você
Pois assim, algo tão simples, como eu disse, torna-se complicado
Pois como alguém em estado, de choro por tristeza, torna-se feliz ?
Como alguém, triste e perdendo lágrimas, torna-se feliz ?
Como é mais fácil explicar algo complicado fazendo perguntas
Como é triste eu aqui chorando, mas ninguém se importa
Minha lágrima caindo como tinta que não foi pincelada
É engraçado querer ser triste, quando se é a pessoa mais feliz do mundo
É engraçado dizer qual é a canção mais linda, quando se é triste
É só a canção do silêncio que poderá dizer isto, só
E isto eu digo, que fico chateado, não poder viver para sempre
Não poder estar presente em coisas tão belas
Não poder mais chorar, quando se é bom
Não poder vê-los chorando e poder chorar novamente
Não poder escrever mais, mas lembrarei

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

(Poema da boca)

Foda-se se me encarno, me crio, me tranformo
Foda-se se eu vago, me vicio, me desolo
Foda-se se me mato, me rasgo, me costuro
Foda-se se sou duro, eu me aturo
Foda-se se ainda me vicio
Foda-se se não sou passarinho
Foda-se se não tenho meu próprio ninho
Foda-se se estou no ar

domingo, 10 de outubro de 2010

(Poema de Puer)

Todas essas coisas, que vêm à minha cabeça
Saio correndo e escrevo em algum lugar
Se não eu perco, não consigo me lembrar
E quando eu perco, já era
Passará a primavera, todas sem um rastro
E sem ter nenhum rastro, eu elimino
E me vem quase feito menino, sumindo, sumindo
Assumindo um novo verso
E este sim, eu logo escrevo, já é sucesso

sábado, 9 de outubro de 2010

(Pare!)

Não sei por que, meu peito sofre
por amor
Não sei por que, meu peito arde
por amor
Não sei por que, meu peito sangra
por amor

Pare!
Não vamos mais falar de
amor
Pare!
Não quero mais falar de
amor
Pare!
Não posso mais falar de
amor

domingo, 3 de outubro de 2010

(Pais)

São eles pais
que falam bobagens
que riem de bobagens
que são bobagens

São eles filhos
que brigam
que me castigam
que me instigam

são eles pobres
que comem e falam
que faltam
que nem percebem

são eles ricos
que gastam
que não repõem
que sempre impõem

são eles pedras
que ferem nossa face
que nos deixam tristes
que não rolam mais

são eles mutantes
que não são mais os mesmos
que eram como nós
que seremos como eles

são eles pães
que nos alimentam
que nos moldam
que nos preparam

são eles lavradores
que nos semeiam
que não nos colhem
que não nos deixam colher

são eles críticos
que brigam por nada
que insistem no fútil
que não entendem

são eles assim

e assim são eles
são eles pais

domingo, 26 de setembro de 2010

(liberd'arte)

Liberdade onde não há idade
Mas se acaso me deixe tão fixo
Eu grito e lamento por isto
Rasgo-me e sangro-me com lirismo
Com lágrimas escritas

Mas se acaso me deixe tão livre
Eu grito e transpiro emoções
Recomponho-me e deito-me sobre os frutos
Sacio minha fome e planto as sementes
E colho-as para a próxima primavera

Sensibilidade aflorando sem luxo
Deflora-se selvagemente pelo o impulso
Seguindo permanentemente o influxo
Das correntes quebradas perdendo seu uso
E estou livre outra vez

Liberdade ao sorrir e ao chorar
Pois ao chorar, minhas lágrimas se libertam
Já não estão mais fixas
Ao sorrir, liberto-me do exílio
Cantarei a linda canção

Mas se acaso me sobre um não
Eu não desisto, eu resisto
Eu resisto a isto
Eu crio e me recrio, eu insisto
E novamente me liberto disto

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

(Nem todos podem)

É, nem todos os pássaros podem voar
Nem todas as árvores podem saltar
Nem todos os homens podem amar

domingo, 19 de setembro de 2010

(Vida de Poeta)

Deixe-me viver para sempre
mesmo que o sempre não seja agora
deixe-me morrer só neste momento
para nascer a toda hora

nascer num cemitério
para sentir-me mais vivo
sentir-me mais velho

Fecho meus olhos e sinto o vento
assim, penso
fecho as janelas e ouço o silêncio
que já não sai da minha mente

A poesia sussurra em meu silêncio
a pressa da maioria dos versos
já não me interessa
quero morrer lentamente

Sinto que há algo de podre à minha volta
as sementes não florescem mais
os frutos já estão amargos, não amadurecem
o pólen já não esconde o mal cheiro

Os podres frutos caem sobre o campo
os pobres insultos sobre os santos
os poderes e surtos dos puritanos
há algo de podre à minha volta
mas, deixe-me viver para sempre

sábado, 18 de setembro de 2010

(Favela do Rei)

Eu acordei na favela do rei
reinventei toda lei da favela
favelado já pode ser príncipe
principal de um reino bem simples
simplesmente acabei com o pobre
pobreza não tem por aqui
aquisição de dinheiro não há
haverá é o bem bem comum
comunidade aqui é real
realidade do bem sobre o mal
maldição já perdeu a razão
razoável que seja assim
assimila com a repressão
repreendida do início ao fim

e o samba nasceu
pois agora eu posso cantar
pois meu samba é bem diferente
sei que já tem um tanto de gente
que já quer e já pode sambar

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

(Com tudo isso)

Com todas essas ondas azuis
Que formam poesias suaves
Que pintam belas nuvens e aves
Que bordam tecituras nas ruas
Que me faz ter mais prazer

Com todos esses filhos chorando
Que regam toda a morte e fome
Que mexem com a dor do homem
Que aparece ajuda e sempre some
Que me faz enlouquecer

Com toda essa beleza
Que furta minha tristeza
Que me trás o lirismo
Que reje o meu cantar
Que me faz ter que viver

Com todo esse vai e vem
Que mentem e riem da gente
Que mordem e nos devoram
Que dão e logo roubam
Que me faz não entender

Com todo esse amargo e doce
Que cruzam com nossas vidas
Que nos tornam humanos
Que nos deixam sem saída
Que me faz no fim morrer

Com toda essa poesia
Que amacia nossa vida
Que nos permite pensar
Que nos trás a solução
Que me faz renascer

Com toda essa que
Com todas essas
Com todo esse que
Com todos esses
Com todo esse me faz,
Me faz agradecer

domingo, 29 de agosto de 2010

(Lábios)

Meus doces lábios que sangram por um beijo
Mordem e mastigam seu rígido coração
Digerem lentamente o fruto do amor
risonhos são eles na primavera mística
sangram ao verão entre navalhas cortantes
ao outono, mastigam novamente o fruto do nosso amor
hibernam ao inverno seco
e tornam-se bebês
com cuidados tão especiais que não posso beijá-la
que mal posso ama-lá
pois separar o fruto de nossos doces lábios
e como morrer sem amar alguém

enquanto meus lábios azédam ao inverno
cultivo sua sabedoria e minha melancolia
as brisas frias que posso sentir e beijar
correm sobre meus lábios e me deixam triste
tenho já uma mínima inveja do verão
é uma estação dolorosa, pois minha boca sangra
mas mesmo assim, ainda posso beijá-la
nossos lábios riem na estação das flores
pois entre girassóis, ainda posso beijá-la
que saudades do outono, morder e mastigar
digerir seu coração e tranformá-lo em paixão
enfim, eu ainda poderia beijá-la

A última estação faz congelar minha alma
me tranforma em criança triste e apavorada
congela o tempo, a música para subitamente
meus olhos tornam-se espelhos da morte
pois refretem minha dor e desespero
meus sentimentos já são falhos
começo a sangrar por dentro
e tranbordam as minhas loucuras
as minhas invejas e minha gula
tento lhe mastigar, logo meus dentes quebram
fico triste, mas enquanto as estações não chegam
sacio minha fome mordendo meus próprios lábios

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

(Vida e morte é poesia)


A vida é amarga
não, ela está amarga
quem foi que a envenenou
deixou-a sem vida
deixou-a sem morte
com o sangue a pecou
a morte está cansada
de falsas penitências
falsas persistências
mate a morte e viva sem ela
tente viver sem ela
tente o impossível
morra pela vida
viva pela morte
salve-se deste veneno
envenene a si
esqueça a morte, deixe-a morrer
esqueça os perdões, renove-se
o pecado é seu, viva com ele
sangre até ficar puro
fique puro, estremamente puro
depois crie, faça planos
prometa, mas cumpra
se prometer matar, mate
se prometer salvar, salve
mate por amor
morra por amor
também viva por amor
ele merece ser vivido
viva a natureza
salve a si
ouça, grite
pense duas, três, quatro vezes
mas pense
veja o que ninguém consegue ver
tire sons do silêncio
seja normal
seja natural
depois disto tudo, olhe pra trás e veja
a vida não é tão amarga assim
sugue todo o veneno e cuspa
mas cuspa bem longe
agora sim, viva
pois vida e morte é poesia

sábado, 21 de agosto de 2010

(Mar Negro)


Acordei e vi tudo preto...achei bem normal.
À tarde, continuou bem preto: manteve-se a normalidade.
À noite, adivinha...? Mais preto do que nunca.
A cada dia, eu tinha a esperança de que isto iria mudar.
Após nove meses bem pretos, o momento chegara: enfim, nasci.
Mas, algo inesperado aconteceu, coisa que jamais imaginaria...
Pouco mudou. Continuei vendo o mesmo preto de antes, porém, um pouco mais claro e iluminado.
Mas, mesmo assim, não pude reclamar, pois pelo menos algo mudou.
Finalmente, aquela mudança tão esperada, embora mínima, aconteceu.
Quase que milagrosamente, a luz, tão pura e penetrante, rompeu aquela tão indesejada e inítida escuridão que eu vivia. E, a partir de então, meu mundo começava a mudar.
Hoje, com 59 anos, vivo em um grande mundo menos preto. Ensino aos mais novos, não somente aos mais novos, mas a todos os interessados, a minha filosofia de viver.
Ensino um pouco da essência de mim, o que fui e o que sou. Continuarei a viver neste mundo tão indesejado por muitos, mas tão importante para mim. É o meu mundo, um mundo único e diferente de se viver.
Só agora sei o real significado do silêncio. Bom, o silêncio não existe.
Sim, sou um homem cego, mas um cego que vê a vida de um modo diferente, porém, bastante real.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

(O Cigarro)


O cigarro é um vício,
Que causa disperdício,
Desperdiça sua vida, seus sentidos,
Até seus amigos,
Arranca sua razão,
Exila sua emoção,
O cigarro causa câncer emocional,
Causa uma emoção excepcional,
De solidão,
O diagnóstico é poético,
Dentes amarelos, olhos amarelos,
Hálito sabor tabaco,
Morte rápida, muito rápida,
Milhares de substância que corroem sua dignidade,
Mas como a relatividade dominou o mundo

Seja um fumante, mas não viva como um...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

(Dizem que sou...)


Dizem que sou poeta
Dizem que sou artista
Que posso rir, chorar
E ao mesmo tempo gozar

Dizem que sou forte
Mas posso ser fraco

Sento-me ao lado da morte

Finjo ser bem forte

Mas acho um saco

Se posso rir

Se posso chorar

Não, não posso nem contar

Não, também não posso gozar
Talvez você ainda insista
Talvez eu ainda fique exausto
Talvez me perca de vista

Mas, sim, dizem as entrelinhas

Sou poeta, sou artista